–
Eu procurava uma mãe e encontrei uma família
inteira – disse Rafael, sentado à mesa
da casa da avó, dona Pedrolina Marques, 76 anos.
Rafael
buscava a mãe havia cerca de 20 dias na Capital.
Sem falar português e pedindo informações
no bairro Moinhos de Vento, o jovem encontrou a jornalista
Silvia Caminha, que o levou ao Juizado da Infância
e Juventude. Na sexta-feira, Rafael recebeu as respostas
pelas quais esperou a vida inteira.
Conheceu
a história de Ivana, uma menina órfã
que, aos 16 anos, foi entregue pela tutora à
antiga Fundação Estadual do Bem Estar
do Menor (Febem) com o bebê Rafael, de um ano
e seis meses, que foi entregue à adoção.
O
que Rafael não podia imaginar era que o pai estava
vivo e casado com sua mãe, com que teve outros
três filhos. Ivana Bueno Marques, 45 anos, e Luis
Carlos Marques, 46 anos, moram em Capão da Canoa.
Ela trabalha em um galpão de reciclagem com os
filhos mais velhos, Carlos, 24 anos, e Luiz, 20 anos.
Douglas, 11 anos, é o caçula. O pai é
motorista.
–
Eu não sabia que ele estava vivo. Foi uma grande
surpresa. Eu nunca deixei de pensar nele – disse
Ivana.
Jovem
quer aprender a falar português
Sábado,
na casa da avó paterna, Rafael almoçou
galeto, salada de maionese e macarrão. Todos
já haviam feito a refeição e ficaram
observando o rapaz em volta da mesa. Sem entender uma
só palavra dita pela mãe, Rafael recebeu
abraços, olhares, sorrisos, posou para fotos
e mandou recados por meio de uma intérprete que
o acompanhou.
–
Estou feliz. Quero voltar para a França, ganhar
a minha vida, aprender português e poder retornar
um dia com mais calma. Encontrei o que eu desejei a
vida inteira, e não quero que a história
acabe aqui – disse.
Ao
deixar Porto Alegre, em 1982 com os pais adotivos, Rafael
foi morar na cidade de Saint-Julien-de-Concelles, no
oeste da França. Na Europa, estudou pouco e viajou
muito, experimentando todo tipo de ocupação.
Para
ele, o fato de ser adotado trouxe-lhe instabilidade
e o sentimento de não pertencer a lugar nenhum.
Buscar a mãe biológica seria a chance
de preencher um vácuo em sua vida.
Ivana
agora deixou de ser apenas um nome em antigos documentos.
O jovem franco-gaúcho entendeu o motivo da adoção,
conheceu a família toda e acredita que isso permitirá
que avance na vida profissional e pessoal. Em breve,
deve retornar para a ilha francesa de Guadalupe, na
América Central, onde trabalha com turismo. E,
quem sabe, escrever a história da sua vida. Que,
certamente, incluirá o sabor da comida da avó.
–
Gostei muito. A comida estava bem preparada –
elogiou. |