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Matéria publicada na Zero Hora de 27 de outubro de 2008
Rafael buscava a mãe e ganhou uma família

Exaustiva procura do jovem francês que começou há 20dias na Capital terminou com almoço na casa da avó em Canoas
Mãe, pai, irmãos, avó, tios, tias e uma criançada correndo por todos os lados. Assim foi o almoço de sábado de Rafael Lorre em uma casa simples do bairro Mathias Velho, em Canoas. Aos 29 anos, o jovem que deixou Paris à procura da mãe biológica em Porto Alegre conseguiu desvendar sua origem. E se surpreendeu.
– Eu procurava uma mãe e encontrei uma família inteira – disse Rafael, sentado à mesa da casa da avó, dona Pedrolina Marques, 76 anos.

Rafael buscava a mãe havia cerca de 20 dias na Capital. Sem falar português e pedindo informações no bairro Moinhos de Vento, o jovem encontrou a jornalista Silvia Caminha, que o levou ao Juizado da Infância e Juventude. Na sexta-feira, Rafael recebeu as respostas pelas quais esperou a vida inteira.

Conheceu a história de Ivana, uma menina órfã que, aos 16 anos, foi entregue pela tutora à antiga Fundação Estadual do Bem Estar do Menor (Febem) com o bebê Rafael, de um ano e seis meses, que foi entregue à adoção.

O que Rafael não podia imaginar era que o pai estava vivo e casado com sua mãe, com que teve outros três filhos. Ivana Bueno Marques, 45 anos, e Luis Carlos Marques, 46 anos, moram em Capão da Canoa. Ela trabalha em um galpão de reciclagem com os filhos mais velhos, Carlos, 24 anos, e Luiz, 20 anos. Douglas, 11 anos, é o caçula. O pai é motorista.

– Eu não sabia que ele estava vivo. Foi uma grande surpresa. Eu nunca deixei de pensar nele – disse Ivana.

Jovem quer aprender a falar português

Sábado, na casa da avó paterna, Rafael almoçou galeto, salada de maionese e macarrão. Todos já haviam feito a refeição e ficaram observando o rapaz em volta da mesa. Sem entender uma só palavra dita pela mãe, Rafael recebeu abraços, olhares, sorrisos, posou para fotos e mandou recados por meio de uma intérprete que o acompanhou.

– Estou feliz. Quero voltar para a França, ganhar a minha vida, aprender português e poder retornar um dia com mais calma. Encontrei o que eu desejei a vida inteira, e não quero que a história acabe aqui – disse.

Ao deixar Porto Alegre, em 1982 com os pais adotivos, Rafael foi morar na cidade de Saint-Julien-de-Concelles, no oeste da França. Na Europa, estudou pouco e viajou muito, experimentando todo tipo de ocupação.

Para ele, o fato de ser adotado trouxe-lhe instabilidade e o sentimento de não pertencer a lugar nenhum. Buscar a mãe biológica seria a chance de preencher um vácuo em sua vida.

Ivana agora deixou de ser apenas um nome em antigos documentos. O jovem franco-gaúcho entendeu o motivo da adoção, conheceu a família toda e acredita que isso permitirá que avance na vida profissional e pessoal. Em breve, deve retornar para a ilha francesa de Guadalupe, na América Central, onde trabalha com turismo. E, quem sabe, escrever a história da sua vida. Que, certamente, incluirá o sabor da comida da avó.

– Gostei muito. A comida estava bem preparada – elogiou.