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“Sempre quis saber quem era minha mãe biológica”.

Foi com esse propósito que José Ricardo Andrade Fischer, (41 anos), comerciante, transformou sua vida em uma constante busca por suas origens.

Fischer sempre soube que era filho adotivo, mas foi a partir dos 12 anos que se interessou em procurar a família biológica. A busca começou dentro da própria casa, nas perguntas que fazia a sua mãe adotiva, da qual não surtiram efeitos positivos.

Aos 15 anos de idade resolveu ir a cartórios e orfanatos intuindo encontrar maiores informações, no entanto essa busca foi em vão.


Aos 17 anos encontrou dentro da própria casa, a certidão de adoção, constando o nome da mãe biológica completo. Assim começou a investigação, que segundo Fisher não foi fácil. “Em certos momentos pensei em desistir, parecia impossível reencontra-los”.

Foi por acaso que nessa mesma época, encontrou em uma lista telefônica o nome do irmão de sua mãe biológica, Denis Molarinho. O mesmo não falava com a mãe de Fischer há 20 anos, no entanto indicou o telefone da suposta vó.

Entrou em contato com a vó, que sabia poucos detalhes da filha, mas pode informá-lo que ele possuía um irmão gêmeo, também deixado na adoção, este segundo o registro chamado de Paulo Ricardo Molarinho. A mesma informou o local onde supostamente trabalhava a mãe de Fischer, (prefeitura de Viamão, cidade metropolitana de Porto Alegre).

Depois destas descobertas, permaneceu algum tempo sem procurar. Mas em outubro de 1992, uma semana antes de nascer seus filhos, quando tinha 24 anos, finalmente encontrou sua mãe biológica.

O encontro foi tumultuado. Fischer foi à prefeitura de Viamão, mas ela não estava. Descobriu que os funcionários da prefeitura estavam no Cantegril, (clube de lazer de Viamão), trabalhando na eleição.

Logo ao chegar, reconheceu-a. “É instinto. Tinha certeza que ela era a minha mãe”, relata. Mas mesmo assim perguntou ao fiscal da mesa o nome da mulher, e ele confirmou sua expectativa. Ela se chamava Ana Aurora Molarinho, era a sua mãe, aquela do qual ele sempre sonhou em reencontrar um dia.

Dona Ana reconheceu-o e chorando veio ao seu encontro. Ela estava muito assustada. Fisher sentia-se da mesma maneira, “Eu estava apreensivo, é uma angústia muito grande”.

Conversaram durante umas três horas. Dona Ana relatou que por ter engravidado quando ainda era solteira e ter sido rejeitada pela família, se viu obrigada á abandonar os filhos quando estes tinham apenas um ano de idade.
Durante um período de quatro anos se viam de uma a duas vezes por semana.

Depois houve algumas brigas devido Fischer insistir em querer saber os reais motivos de ter sido deixado para a adoção, em querer saber quem era seu pai e seu irmão. Isso provocou o afastamento e a ruptura da relação.

Faz 10 anos que não existe nenhum tipo de contato entre eles. “Sinto muita saudade dela. Apesar de todos os motivos é minha mãe, e amo-a muito”, relata Fischer.

Por querer saber sua história e ter a curiosidade sobre o ato de adoção, resolveu colaborar com as pessoas que passam pelo mesmo problema, dor e angústia que ele passou.
No início do mês de abril criou uma comunidade no site de relacionamentos da internet, (orkut) que se chama “Filhos adotivos do Rio Grande do Sul”, que tem 80 membros e está crescendo cada vez mais.

Por essa razão dedicou-se a criação de um site: “Filhos adotivos do Brasil”, que teve a página lançada no dia 15 de junho de 2007. No mesmo dia aconteceu a primeira reunião com todo o grupo de pessoas que estão integrando e participando do projeto.

Fischer é casado e tem um casal de gêmeos: Bárbara e Mateus, de14 anos. Tem como pretensão adotar mais duas crianças e continuar trabalhando na missão de reencontrar aqueles que um dia por ventura os deixaram para a adoção, mas que, no entanto foram responsáveis pela origem de suas vidas.
Daiane Benso - Estudante de Jornalismo

Tornando-se pais adotivos

Vocês acabam de se tornar pais adotivos, ou estão pensando seriamente nisso. Ao lado da expectativa e da alegria, o medo e a incerteza, uma sensação de incapacidade... igualzinho aos pais naturais.
A mãe natureza dá aos pais naturais a possibilidade da gestação, que é um preparo físico e emocional, para a chegada do mais novo membro da família, e sabemos que dura, em média, 40 semanas.

Já com o filho adotivo essa "gestação" tem um tempo impreciso, podem ser anos ou dias. Mas seja qual for o tempo que vocês tiverem entre o momento em que tem a certeza de que o bebê vai chegar e o "grande dia" da chegada, várias medidas podem ser tomadas para facilitar essa transição:
Descubram como se sentem os pais adotivos
Conversem com outros casais que adotaram bebês, sobre suas preocupações e seus problemas e soluções.

Leiam livros sobre o assunto.


Encontre um grupo de apoio a pais adotivos ou busque a ajuda de um psicólogo especializado e faça um acompanhamento.

Descubram como se sentem os recém-nascidos
Façam um curso de preparação ao casal grávido (ao menos às aulas que falam de recém-nascidos e cuidados físicos e emocionais).

Aprendam um pouco sobre "inteligência emocional" a fim de ajudar seu bebê recém-chegado. Leiam livros sobre bebês.

Dêem uma "boa" olhada nos bebês
Visitem amigas e conhecidas com bebês novos ou vá até uma maternidade ou berçário, e olhe bem para eles, para que não pareçam tão estranhos.

Façam as compras com antecedência
Programe-se, preparando uma lista de enxoval e objetos "úteis" a um bebê. Vá às lojas especializadas e compre tudo o que seu filho usará nos próximos meses, assim terá mais tempo livre para quando ele finalmente chegar.

Escolham o pediatra de seu filho

A escolha antecipada do pediatra é tão importante para vocês quanto para um "casal grávido". Marcar uma consulta antes da chegada do seu filho possibilitará a vocês fazerem perguntas e manifestarem suas preocupações de pais adotivos. E daí, tão logo o bebê chegue, já poderá passar por uma consulta pediátrica, e o médico saberá um pouco mais sobre vocês, trazendo benefícios ao bebê.

Considere a possibilidade de amamentar
Algumas mães-adotivas são capazes de amamentar seus bebês, ao menos em parte. Converse com seu ginecologista a respeito, ele fará as orientações e encaminhamentos necessários.

Contem aos familiares e amigos a novidade
Pode ser do jeito mais tradicional: enviando um cartão participando a chegada do bebê (e deixando claro que é um bebê adotado) "Temos o grande prazer de comunicar a adoção de...." . Ou informalmente, pelo telefone.

Lembrem-se: ao falar com quaisquer pessoas sobre o bebê, refira-se desde o começo a nosso (a) filho (a) . E ao mencionar o casal que o gerou, chame-os de "pais biológicos" ou "pais de nascimento", nunca digam PAIS VERDADEIROS, pois os pais verdadeiros são vocês. E quanto mais resolvida for esta questão para vocês, será para os que os cercam.

Contem ao seu filho
Hoje, já não se pergunta mais se deve-se ou não contar a uma criança que ela é adotiva. Faz parte do contexto geral e todos os especialistas concordam que as crianças PRECISAM saber e tem o direito de saber de sua adoção. E sempre através dos pais . Vocês podem começar desde o momento que a criança chega à casa. Mencionando que foi "o melhor dia de suas vidas" e que " estão muito felizes por terem adotado ele(a)". Embora a criança não seja capaz de entender o que significa a "adoção" antes dos 3 ou 4 anos, o contato precoce com esse conceito fará parecer natural e tornará a sua explicação, quando vier, menos ameaçadora e mais fácil de suportar.

E finalmente, lembrem-se: os pais adotivos tem direito a todas as dúvidas, ansiedades, medos, expectativas, surpresas e alegrias dos pais biológicos. Portanto permitam-se ser PAIS, sem medo de errar.
Boa sorte!
Clarice Skalkowicz Jreissati - Psicóloga


Pais e filhos na era do DNA
Como o teste de paternidade mudou a vida de quem
descobriu não ser o pai biológico de seus filhos

Tanto Eduardo quanto Marcos têm seus direitos respaldados pela lei. De acordo com o novo Código Civil, artigo 1.593, a paternidade sócio-afetiva é mais reconhecida que a paternidade biológica, segundo a advogada Priscila Corrêa da Fonseca. Ela acrescenta: "A filiação hoje se desligou da origem biológica, e se assenta mais no afeto, que se deve sobrepor à origem biológica. Filho é quem você cria".
Para a advogada gaúcha Marilene Guimarães, "é crueldade a mãe esquecer os vínculos afetivos com o pai que ela apresentou ao filho como sendo seu. A mãe que age dessa forma não se dá conta, em sua atitude egoísta, do mal que faz a seu filho. Pactuar com isso é causar maus-tratos à criança.

O Poder Judiciário, como um pai maior, com certeza saberá manter a visitação do pai sócio-afetivo dentro dos mesmos critérios que asseguram as visitas aos pais biológicos". Nos dois casos, de Marcos Campos e Eduardo Zaide, ambas as advogadas acreditam que eles tenham sido desrespeitados em sua "dignidade humana". A legislação hoje chega, em alguns casos, a dar ao pai afetivo o direito de impedir que o nome do pai biológico conste na certidão.
O Rio Grande do Sul é o Estado brasileiro que avançou mais nessa questão. Tribunais gaúchos já criaram jurisprudência, ao determinar que um registro do nascimento deve atentar mais para a verdade afetiva do que para a verdade biológica. Todo indivíduo tem o direito de saber de onde veio, até mesmo por motivos médicos, de doenças genéticas. Mas o homem que acompanhou a gestação, que assistiu ao parto, que cortou o cordão umbilical, que deu os primeiros cuidados e que é reconhecido pela criança e pela sociedade como pai teria, segundo o parecer de vários juízes e advogados, primazia sobre o que apenas cedeu o esperma sem sequer desejar ou planejar a paternidade. Esse "privilégio" fica bem claro em famílias que adotam uma criança. Caso, depois de dois anos, os pais biológicos queiram a criança de volta, dificilmente a terão, porque se subentende que os pais de fato e de direito são os que escolheram e cuidaram desse bebê como pais nos primeiros anos de sua vida.

Dois casos recentes ocorridos fora do circuito das celebridades ilustram isso. O paulista M.G. namorou uma moça, terminou e reatou. Ela descobriu que estava grávida havia um mês de outra pessoa e contou para M.G. Ele assumiu tudo, casou com ela, e, quando o filho nasceu, o casal o registrou como filho de M.G. Três anos depois, o casamento acabou. A mulher quis ver-se livre dele como pai da criança, e chegou até a procurar o pai biológico. "Mas eu já tinha a certeza afetiva de que era pai dele. Não poderia ficar sem meu filho. Entrei com ação de regularização de visitas. Hoje, ele tem 7 anos, e toda terça pernoita comigo, passa férias de janeiro e julho, fins de semana alternados, feriados alternados. Eu não sou um pai descartável."

Outro caso é de A.L., que trabalha com expressão corporal. Era casada, separou-se, teve um namoro rápido do qual engravidou. Mas o amor mais forte era pelo ex-marido. Eles reataram, os três adultos envolvidos conheciam a situação. A criança nasceu, foi registrada pelo pai biológico, mas quem acompanhou a gestação, o parto, cortou o cordão umbilical e dividiu tudo com a mãe foi o pai afetivo. A.L. e o marido se separaram anos depois. Hoje, a menina tem 6 anos, e se sente diferente das amigas porque tem dois pais: um adora esquiar, o outro é artista. Os dois a visitam, saem com ela. "No início, cheguei a procurar uma terapeuta familiar", disse A.L., "porque queria saber o que era melhor para minha filha; se fosse melhor afastá-la do padrasto, eu teria feito isso, por mais doloroso que fosse. Mas a terapeuta foi muito clara: não a afaste do pai afetivo, isso seria um desrespeito com a vida emocional da sua filha".

Outros personagens importantes nessas histórias são o obstetra e o pediatra que acompanham o parto. Por vezes, quando se sabe o tipo sanguíneo dos pais e da criança, fica claro que existe algo errado. Qual é a obrigacão ética do obstetra hoje, numa época em que ele deixou de ser simplesmente médico da mulher e passou a ser do casal, já que o pai costuma acompanhar as consultas e praticamente engravida junto com a mulher? "Esta é uma questão muito complicada", diz Ricardo Sertã, médico especialista em reprodução. E acrescenta: "Não se pode dar uma notícia dessas e dissolver um matrimônio. Normalmente, o obstetra nem fica sabendo o sexo do bebê. Mas, se souber por um motivo médico qualquer, e o tipo não bater com o sangue do pai, o médico tem obrigação de chamar a mãe e comunicar. Por respeito ao sigilo médico, ele deverá omitir o dado do pai. Mas, caso o pai pergunte diretamente se há certeza de que o filho é dele, aí o médico, para ser ético, terá de responder a verdade. Eu não conseguiria mentir".

Com Ricardo Sertã aconteceu um caso inacreditável, envolvendo inseminação artificial. A paciente levou à clínica uma amostra de sêmen que, nove meses depois, na hora do nascimento, ficou comprovada não ser a do marido. Apavorado, o médico reexaminou toda a papelada do processo e viu que a mulher tinha assinado um termo na clínica garantindo que o esperma seria do marido. Era uma informação falsa, estava provado. Sertã foi ao quarto da paciente, fechou as portas, e perguntou se ela tinha algo a contar para ele, e a mulher confirmou que tinha levado uma amostra do amante, e não do marido. Ele jamais soube da manipulação de sua mulher. Serão felizes para sempre?

Ruth de Aquino - Revista Época