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Compreendendo
o Filho Adotivo |
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O
filho adotado não vem de fora; vem de dentro, do mesmo
modo que o filho, biologicamente gerado, vem de dentro e não
de fora. Se a adoção se efetiva, em muitos casos,
como conseqüência de transtornos biológicos,
fisiológicos ou psicológicos, a geração
biológica de um filho nem sempre ocorre dentro dos padrões
ideais de expectativa. Isso nos leva a pensar que, certamente,
não seria estranho, usar a mesma expressão para
as duas situações: tanto os que têm filhos
biológicos quanto os que os têm por adoção
geram, verdadeiramente, seus filhos. A inexistência dos
laços genéticos não invalida as relações
parentais.
No processo existencial da vida, uma decisão levará
a tantas outras quantas forem necessárias para dar sentido
à primeira. Erram aqueles que pensam que, na vida, sobretudo
nas relações interpessoais, as decisões
são isoladas e independentes das que virão mais
adiante.
No filho adotivo não se realiza a marca genética
nem se satisfaz a expectativa social da "normalidade"
reprodutiva. |
Parece
que perdura na cabeça das pessoas a necessidade da reprodução
como um atestado de capacidade fisiológica. Não
se consideram todos os outros laços que, na pessoa humana,
ligam os genitores a seus filhos. Certamente, das ligações
familiares, as mais limitadas são as que se referem aos
aspectos genéticos. As relações afetivas
constituem o grande arcabouço das ligações
interpessoais, que perduram, renovam-se e compõem a dinâmica
da vida.
No seu sentido mais profundamente existencial, o filho adotivo
surge como um agente de realização e de prazer,
mesmo quando sua trajetória é tumultuada e difícil.
Nesse aspecto, em nada difere a filiação genética
da adotiva. A filiação por adoção
carrega o mito da dúvida sobre o acerto da escolha, levando
muitas pessoas a assumirem uma atitude preconceituosa e, portanto,
inadequada, sobre o seu futuro. Nada do que é passível
de acontecer ao filho adotivo deixa de sê-lo, também,
ao "filho biológico".
Procriar é uma condição dada pela natureza;
criar é uma responsabilidade no âmbito da ética
entre os homens. É nessa relação que identificamos
um dos momentos cruciantes da estabilidade humana: o desnível
entre criar e procriar. Procriar é um momento; criar
é um processo. Procriar é fisiológico;
criar é afetivo. A adoção do filho se insere
exatamente aí: na atitude e nos atos de criação
no sentido físico e afetivo. O filho, que era sonho,
e por ser sonho, tinha a condição fundamental
de ser realidade, afirma-se como filho, não pelo processo
biológico e fisiológico do nascimento, mas pela
adoção afetiva dos pais que, incondicionalmente
o amam.
Para que o filho veja os pais adotivos como os seus verdadeiros
pais, nada mais é preciso do que a convivência
que supre, que permite trocas, que proporciona a oportunidade
de ouvir e de falar, de tocar e ser tocado, de chorar e ser
consolado.
O filho adotivo tem, muitas vezes, dificuldade de aceitar a
aceitação. Não é fácil para
ele receber seja o que seja, inclusive afeto. Receber é
sinônimo de impotência, de falência pessoal.
Até que se perceba dando alguma coisa, inclusive afeto,
fica difícil para ele ver-se como sujeito. Por um tempo,
se questiona; percorre o caminho da dúvida entre ser
objeto e ser sujeito
Adoção
- Origem, segredo e revelação.
"Para amar o filho, não é preciso conhecê-lo,
no sentido de esquadrinhar sua personalidade ou mapear seu
caráter. Amamos, porque estabeleceu-se desde o início
o desejo e a disponibilidade de tê-lo (não importa
a forma) e querê-lo incondicionalmente."
"Todos os filhos são biológicos e todos
os filhos são adotivos. Biológicos, porque essa
é a única maneira de existirmos concreta e objetivamente;
adotivos, porque é a única forma de sermos verdadeiramente
filhos."
"O silêncio, sob a capa da preservação,
deixa um halo de vulnerabilidade que propicia insegurança,
desconfiança e desilusão. Nas relações
interpessoais, não temos o direito de silenciar sobre
as coisas que dizem respeito à vida das pessoas com
quem nos envolvemos."
"Por que esconder o que está inscrito no inconsciente?
Nas ligações afetivas, a comunicação
transcende o consciente. É nesse encontro que ultrapassamos
as barreiras do racional e mostramos um ao outro a face à
qual poucos têm acesso. É nesse momento que se
estabelece a verdadeira comunhão. Viver só o
consciente seria pouco para quem ama. O amor também
se nutre do inconsciente."
"Talvez não seja fácil amar uma criança
que lembra a cada momento os que a abandonaram. O conhecimento
da origem, para os pais adotivos, pode funcionar como a exumação
de um fato que deveria permanecer sepultado. Esse contexto
desfavorável poderá ser evitado se encararmos
a família biológica como o "grupo procriativo"
e a família adotiva como o "grupo criador"."
"Na relação entre pessoas que se amam,
o segredo dificulta a expansão do afeto e constrói,
de forma imperceptível, barreiras que, quando descobertas,
nos amedrontam e nos deixam impotentes para viver uma relação
honesta de amor. O receio da mudança não vale
a perda da convivência, mesmo porque numa relação
interpessoal afetiva, as mudanças são parte
da sua dinâmica. Não podemos adotar o silêncio
ou a fuga diante do fato de que a revelação
é um direito do outro."
"Ter medo da mudança é ter medo da vida."
"A verdade é o fundamento sobre o qual se ergue
qualquer relacionamento amadurecido. A relação
entre as pessoas começa a se deteriorar a partir do
momento em que elas escondem a verdade umas das outras. O
silêncio sobre a verdade é o balbuciar da mentira.
E a mentira distancia as pessoas, enquanto a verdade as coloca
face a face. A verdade não machuca quando vem acondicionada
no afeto. Quem ama anseia pela verdade, porque ela é
a garantia de estar sendo respeitado. Dizer ao filho a verdade
sobre sua história é mais fácil do que
negá-la ou desfigurá-la, o que exigirá
uma perícia que os mentirosos não possuem."
"Não basta dizer a verdade; é preciso que
ela seja bem-dita." /
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