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Uma
prece para Cissa Feller |
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mais de 25 anos desenvolvi a especialidade de ginecologia/obstetrícia,
tendo uma clínica com mais de dez mil pacientes cadastradas
o que me valeu uma enorme experiência clínica e cirúrgica
desenvolvida numa cidade da grande Perto Alegre. |
Muito
embora a imensa maioria das situações fosse corriqueira,
decorrentes de doenças comuns da mulher, o volume de
atendimento me permitiu encontrar algumas raridades, dentre
as quais cinco casos de ausência total de vagina por más
formações genéticas que ocasionavam obviamente
esterilidade conjugal além de outras implicações
na sexualidade dessas pacientes.
Outra raridade que motivou uma publicação inédita
no Brasil, se constituindo no primeiro caso relatado de tal
patologia em nosso país, e o quinto caso detectado no
mundo foi a identificação feita por nós,
em uma paciente, com diagnóstico de Melanoma Primário
de Vagina que nos obrigou a uma ablação cirúrgica
total dos órgãos genitais da portadora, em cirurgia
que durou mais de sete horas e a posterior publicação
do caso na literatura com o que nos habilitamos ao reconhecimento
de título de especialista em gineco/obstetrícia
a nível regional, posteriormente alargado a nível
nacional pela obtenção, via concurso do TEGO,
Título de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia
da AMB- Associação Médica Brasileira, obtido
em Curitiba e que levou o número 172 de 1972.
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Mas
o caso mais curioso que tive ao longo de todos esses anos
foi o de uma paciente que preservaremos sua identidade,
utilizando um nome fictício, e que desejava ardentemente
engravidar.
Esse
desejo natural das mulheres, é objeto de passagem
bíblica, onde Sara, em idade avançada, não
podia dar descendência a seu esposo Abraão,
ofereceu a este sua serva Hagar para ter um filho e livrar
a família do opróbrio de não deixar
descendência...
Decorridos alguns anos, e livre daquela obrigação
social de engravidar, Sara pode finalmente dar a luz a um
filho seu.
Como
veremos na história a seguir, esses mesmos fatores
devem ter atuado para bloquear uma função
fisiológica desta minha paciente, a qual também
se beneficiou de um artifício para poder ser mãe.
Pois esta paciente, depois de alguns anos de casamento e
tentativas infrutíferas para gestar, ela resolveu
fazer uma investigação. Procurou-nos e literalmente
a viramos do avesso para tentar descobrir as verdadeiras
razões daquela infertilidade.
Após realizarmos todos os testes disponíveis
na época, tivemos que confessar que não tínhamos
mais condições de prosseguir, porque todos
os resultados dos exames realizados na paciente e em seu
esposo tinham sido absolutamente normais.
Encaminhamos a paciente a um centro mais especializado que
após investigar exaustivamente o caso nos devolveu
a paciente sem soluciona-lo.
Decorridos mais um ano ela nos reapareceu na clínica
para informar que tinha desistido de engravidar, pelo que
adotou uma criança, para suprir sua necessidade maternal
e altruísticamente para ajudar uma criança
pobre, tendo optado por adotar uma criança de cor
preta do sexo masculino, recém nascida.
Apoiamos e a parabenizamos pela iniciativa tomada, porque
era o adequado à situação que estava
posta.
Decorrido
mais um ano a Cissa reapareceu na clínica com um
atraso menstrual de três meses, o que não era
fato usual em sua história de menstruações,
quase sempre bem regulares.
O exame clínico suspeitou um aumento de útero
e a investigação resultou numa gravidez !
Mais, a ecografia realizada quando foi possível,
revelou uma gestação gemelar !
Por ironia do destino a paciente que não engravidava,
após ter desistido de ser mãe naturalmente
e após ter adotado uma criança, estava finalmente
grávida e de gêmeos.....
Ela verbalizou claramente que o “pretinho”,
como carinhosamente o chama, tinha sido a chave do problema.
Para ela claramente a “desistência” de
ser mãe natural a despreocupou da “obrigação”
que se impunha de ter que engravidar e isso deve ter alterado
sua química cerebral e os fatos passaram a fluir
natural e não mais neuroticamente.
Já tínhamos tal percepção, àquela
época, por diversos outros casos que assim aconteciam,
ou seja, descartada a possibilidade de engravidar, embora
nada se encontrasse de anormal nos exames, muitas pacientes
retornavam ao consultório grávidas, justamente
quando não mais imaginavam poder vir a ser mães,
algumas com ou sem adoção de filhos.
Mas o caso em comento era inusitado como vamos ver a seguir.
Ela teve parto cesáreo que evoluiu muito bem. Ela
estava muito feliz e agradecia aos céus em todas
as consultas a iniciativa da adoção que a
tranqüilizou e que, lhe teria aberto às portas
da maternidade natural.
Agora com três filhos tinha apenas um inconveniente:
trocar numerosas fraldas dos bebês, pois o negrinho
adotado ainda usava fraldas, mas já estava quase
tendo controle de seus esfíncteres.
A vida prosseguiu mais um ano até que Cissa retorna
ao consultório com uma babá e os três
rebentos, e...com um novo atraso menstrual.....
O exame revelou nova gestação que a ecografia
confirmou ser uma nova gestação gemelar !
Quando lhe dei o diagnóstico ela quase caiu para
trás. Gemelar ? De novo ?
Sim, era seu destino !!!!
Novo parto cesáreo, decorridos os 9 meses regulamentares,
com revisões periódicas pré natais
absolutamente normais.
Quando retornou com os cinco filhos ela desabafou:
Eu sou louca mesmo ! Agora troco fraldas de quatro crianças...ainda
bem que o negrinho já controla o xixi e o cocô
!!!!!
A Natureza tem seus desígneos que não entendemos,
mas certamente um dia ainda vão descobrir o nome
da substância que bloqueia, na química cerebral,
a possibilidade de algumas mulheres engravidarem, quando
a intensidade do desejo de ser mãe bloqueia alguma
função ainda desconhecida......pois a sucessão
de casos dessa ordem é muito significativa.
A última vez que vi a Cissa era lutava contra um
câncer de mama......
A vida tem muitas surpresas, a clínica nos permite
viver muitas vidas de nossas pacientes, mas a história
de Cissa Feller merece uma Prece....
Uma Prece para Cissa Feller.
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