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O que os números apontam a respeito do perfil do adotado no Brasil revela uma realidade escondida. Algo que tentamos defendere em uma idéia de mestiçagem, de democracia racial que apenas fica na cútis. Não adentra em nossas famílias e não faz parte da composição biológica de alguns dos nossos sobrenomes. O lindo ato de adotar dá lugar a exposição do sentimental, e nós vamos então demonstrar indignação por culpar a já tão culpada classe política por mais este fardo, ser a responsável pelas causas do abandono de crianças nas ruas.
Responsabilidades à parte, temos a nossa responsabilidade como sociedade civil. Somos fruto de um país miscigenado onde o cruzamento de raças nos deu uma perfeição sem igual.
Também seria fundamental tratarmos com maior sinceridade sobre o tema racismo. O racismo que é além do institucional, mas sim o racismo mental que está incutido em nós e que nos faz ver crianças mestiças, negras e indígenas crescerem em instituições sem uma palavra, tampouco sem nenhum apoio e acolhida desta mesma sociedade latina que se declara moderna e cosmopolita.
Os números apontam que poucas foram as mudanças e a abertura de muitos futuros adotantes a receber em seus lares uma criança parda ou negra. Reportagem publicada pelo Jornal O Globo, em agosto de 2002 já confirmava que algo que ainda nos é real. Levantamento feito pelo juiz da 1ª Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro, Siro Darlan, constatou que dos 122 candidatos que tinha registrado à época para o processo de adoção, 44 exigiram que os futuros filhos fossem brancos.
Filhos de cor branca acabam levando a muitos candidatos a ter uma tranqüilidade social. Ou seja, tendo em casa uma criança de cor branca, e não mestiça, evitaria um questionamento e também um olhar de pena e caridade. A aceitação e o olhar branco em nós permanece como no tempo colonial, onde o barroco alvo das imagens católicas nos fazem ainda interligar que a beleza é alva, pura, branca.
Estudo produzido pela Universidade Federal do Paraná comprova que menos de 5,5% das crianças negras são adotadas. Se a idade for maior de três anos de idade e menino, aí mesmo é que os números caem. Em um país que tem mais de 80 milhões de afro-descendentes e crianças pardas, as mesmas também acabam padecendo do abandono em instituições as quais ainda funcionam como depósitos de pessoas.
No Brasil pluriracial, 23,8% de crianças pardas, conforme aponta a pesquisa da Federal do Paraná, ganham a chance de ter uma família. Talvez estas sejam adotadas por casais mais idosos, com maior poder aquisitivo, e que não se importam com a cor da pele. Fazem da adoção um ato de benemerência.
O racismo nos faz preparar respostas mais ou menos prontas. Respostas prováveis a questionamentos como: Olha, seu filho é como se fosse da família! Terá o dever de ser bom sempre grato. Se apresentar conduta contrária será rejeitado. Corre o risco de ser rejeitado socialmente.

Adotar é transpor barreiras, é lutar para derrubar preconceitos. Adotar passa também por discutir o tema dentro do Estado. Passa por construir políticas públicas que facilitem a adoção para famílias brasileiras, que se fale e discuta em sociedade a adoção de crianças negras, pardas, adoção de crianças portadoras de necessidades especiais, soropositivas, adoção por casais homossexuais. Vamos construir caminhos para cicatrizar uma ferida social. Os 80 mil menores que vivem em instituições vão nos cobrar da sociedade o porquê de nossa omissão. O Estado deve apoiar os candidatos à adoção ofertando apoio psicológico junto às Comarcas da Infância e da Juventude. Pois são famílias em construção.
O Estado é convidado a estreitar as suas relações com a mídia. A adoção no Brasil pode ganhar uma contemporaneidade e esta sim ser modelo para toda uma América Latina que engatinha ainda na sua formação social, política e econômica. Falar em adoção também é falar em economia, reduzir os números do abandono, cifras que engrossam a indústria do crime. A violência e a desagregação familiar também ajudam a reforçar o racismo.
Falar de racismo e adoção, perguntando quais os filhos queremos adotar passa sim por levar a todos tais visões, tais constatações. Racismo é um problema social.

"Um dia meus filhos viverão numa nação onde não sejam julgados pela cor de sua pela, mas pelo conteúdo do seu caráter".
Martin Luther King

(*) Oscar Henrique Cardoso, natural de Porto Alegre/RS é jornalista, radialista e atual assessor de Comunicação Social da Fundação Cultural Palmares/Ministério da Cultura, em Brasília/DF. Edita ainda o blog PAIS ADOTIVOS SA, www.paisadotivossa.blogspot.com