Sou
pai adotivo. E filho adotivo.
Meus pais se separaram logo na época do meu nascimento
e, então, se iniciou uma disputa entre meus avós
paternos e minha mãe para ver com quem ficariam "as
crianças" - eu e meu irmão mais velho. Eles,
meus avós, mas principalmente minha avó, mãe
do meu pai, achava que nós não estávamos
sendo bem cuidados. Isso era fato: volta e meia apresentávamos
problemas de saúde, alergias, gripes prolongadas... a
alimentação não era bem controlada. Ficávamos
aos cuidados ou de ninguém ou de alguma empregada. Uma
das quais, evangélica fanática, gostava de nos
espancar com uma bela cinta de couro.
Certa vez, ao visitar vovó, ela percebeu as marcas e
vergões dignas de um feitor de escravo do século
XVII. Não teve dúvidas: rumou à delegacia
e abriu um boletim de ocorrência. Mamãe não
era uma má pessoa: estava envolvida em suas neuras desde
criança e não podia e nem sabia fazer melhor.
Tanto que aposentou-se precocemente, por invalidez emocional...
De qualquer forma, eu não estava muito atento a esses
fatos. A vida passava e eu era muito "desligado"...
Não sofria, embora uma amiga psicóloga sempre
tenha tentado me obrigar a entender que eu sofria e estava simplesmente
bloqueando emocionalmente os fatos dolorosos.
Cresci, estudei, comecei a criar uma visão do mundo e
lógico: durante o meu período de adolescência
tinha que enfrentar o mundo e começar a fazer minha vida.
Eu era inseguro, tímido e morria de medo... daí
para culpar mamãe, papai e vovó pelas minhas dificuldades,
foi um pulinho... Aí a psicologia "ajudou-me":
deu a desculpa que eu precisava para saber as razões
das minhas dificuldades... Engraçado: quem é que
não morre de medo ao enfrentar o mundo, tem sua dose
de timidez e insegurança? Adotivos e não adotivos,
todos têm, não é mesmo? E se todos têm,
isso é problema? Mamãe foi rejeitada, vovó
foi rejeitada...
Hoje, já passei dos quarenta. Estou ótimo e sinto-me
um molequinho... igualzinho quando saí da casa de vovó,
aos quinze anos, para ir morar com mamãe. Pois é,
o filho pródigo de retorno ao lar... Cresci, criei minha
família e... lógico, algo me fez adotar... Poderia
dar milhares de explicações do porquê adotar,
mas simplesmente estava em mim e na minha esposa... era uma
força maior do que minha razão...
De alguma forma, queria fazer uma família feliz... Queria
construir o modelo de família que eu não tive...
e por algum motivo, neguei meus pais, meus avós e minha
infância... Casei com uma mulher incrível, tive
a primeira filha e adotei o segundo filho - este, um molecão
que já chegou com quatro anos de idade, e que me provocou
muito...
Adotei "eu mesmo", sem saber. Por alguma volta do
destino estava refazendo o caminho da minha vida, da minha infância,
e depois descobri, da vida da minha mãe e da minha avó...
Pois é: elas também foram rejeitadas. Vovó
perdeu sua mãe quando era criança. Ficou extremamente
ferida e carente... E seu pai, meu bisavô, a deixou para
ser cuidada pela... adivinhem? Vovó - a mãe dele...
Minha avó deve ter ficado "fula da vida"! Geniosa,
forte, dominante, tão logo alcançou a maioridade,
tirou o nome paterno do seu... Excluiu o pai da sua vida...
como se isso fosse possível.
Minha mãe nunca fora abandonada... mas sentiu-se. O pai,
meu avô, era alcoólatra. Japonês, vindo da
pobreza e miséria do Japão pós-guerra,
como todo bom japonês, era seco igual a um punhado de
farinha. Ele também fora rejeitado pelo seu país...
saiu a contragosto, empurrado pela dificuldade. E não
conseguiu estar presente para seus filhos. Mamãe sentiu-se
também rejeitada. Todo mundo era melhor que ela, mais
bonito, mais esperto, mais inteligente. E ela era um lixo. Pelo
menos, se sentia assim, e ainda traz essa péssima auto-estima...
A
rejeição vem do sistema familiar
Hoje trabalho com psicoterapia. Trabalho com constelação
familiar sistêmica. Minha parceira, mestre terapeuta,
ajudou-me a resgatar esse passado. E a constelação
ajuda-me a perceber que a rejeição não
é do filho adotivo que eu fui, nem existem culpados para
ela. Minha mãe tinha essa rejeição, o pai
dela também, minha avó também e até
meu bisavô, com certeza, sentiu-se rejeitado. Essa história
não tem fim. Trazemos impregnadas em nosso DNA as heranças
ancestrais. Nossos medos e alegrias, traumas e conquistas não
são reflexo somente de fatos que vivenciamos na nossa
infância... Eles são carregados pela linhagem familiar.
Qualquer mamãe ou papai sabe que os filhos já
nascem com determinados comportamentos, com características
emocionais.
Já vi isso até em ninhadas da minha cachorra.
Enquanto alguns filhotes, com alguns dias de vida, se atiravam
desesperadamente atrás do leite, um ou outro, não
tinha força, era medroso e parado. E, com certeza, teria
mais dificuldade na vida...
Eu herdei um pouco dessa lerdeza, desse medo de mamar nas tetas
da vida. E não foi culpa da minha mãe. Nem do
meu pai. Nem de ninguém. Através da constelação
entrei em contato profundo com essa emoção da
rejeição que é lugar-comum na minha história
familiar. Comecei a aceitar minha família. A acolher
todos os que foram rejeitados. E assim comecei a aceitar a mim
mesmo. Pois sou parte intrínseca dessa família.
Eu não seria nada, literalmente, sem minha história,
sem meus pais, avós e antepassados. E somente aí,
comecei a realmente ser pai do meu filho. Ele deixou de ser
"eu quando garotinho" e passou a ser uma individualidade.
Alguém também com um história, que um dia
irá confrontá-lo. Mas que cabe a ele resolvê-la.
Meu filho faz parte do meu sistema, hoje. Mas também,
principalmente, é filho dos pais biológicos dele.
Isso nunca irá modificar. Um dia voltei à minha
mãe e reaproximei-me do meu pai. Cheguei inclusive a
cuidar dele em seus últimos meses de vida dominada por
um câncer generelizado. Não foi bondade, não
foi caridade. Simplesmente tinha que ser assim. E fico satisfeito
por ter feito isso, mesmo que às vezes tenha sentido
muita vontade de dar um "pé-na-bunda" do velho,
tão exigente e arrogante...
Meu filho adotivo tem o caminho dele. Eu sou o pai adotivo.
Sou o segundo pai, segundo a constelação familiar
sistêmica diz. E sempre estarei aqui, como segundo pai.
Ele tem um primeiro pai. E uma primeira mãe. Não
sei se eles estarão presentes para ele, algum dia. Mas
isso é pacote que ele terá que desembrulhar...
Eu faço a minha parte.
Hoje não me sinto mais rejeitado. Espero que ele também
não se sinta. Pois a cura para isso está na inclusão:
incluir aqueles que também foram rejeitados em nosso
sistema, a começar pelo... papai e mamãe... Por
mais doloroso que isso possa ser, só posso dizer uma
coisa: essa dor liberta...
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